Eles existem. Logo, pensam

Eles existem. Logo, pensam

Foto: Divulgação
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Testes realizados nos Estados Unidos provam que os animais sabem raciocinar e conversar. Só não conseguem ler o filósofo Descartes.

O filósofo e matemático francês René Descartes errou: os animais pensam. Assim como muitos cientistas que o antecederam ou precederam, Descartes( 1596 – 1650 ) achava “uma irracionalidade” considerar os animais dotados de inteligência. È inconcebível achar que os animais usem palavras ou signos, juntando-os como nós fazemos”, sentenciou ele em 1637. Faltou para o gênio francês aquilo que os humanos conceituaram como humildade.

Passsaram-se pouco mais de 350 anos e agora diversos cientistas americanos – conforme noticiou em sua última edição a revista americana Time – armados da teoria da evolução das espécies de Charles Darwin( 1809 – 1882 ), de tecnologias que permitem o mapeamento de cérebros e uma autêntica arca de Noé, estão conseguindo provar que o Homo Sapiens não é o centro do universo pensante. Segundo os evolucionistas, o homem não chegou ao estágio atual sem deixar rastros – e se dividirmos algumas características com outros seres do planeta, por que não a capacidade de racioncínio? Os animais também pensam e são inteligentes. Alguns, por sinal, conseguem até bater um papo dos mais animados com quem se dispuser a escutá-los.
Perto da cidade de Atlanta, no Estado americano da Geórgia, vive, por exemplo, um chimpanzé dos mais comunicativos. Ele tem demonstrado que não apenas possui bom vocabulário como consegue até mesmo superar uma criança de dois anos e meio em matéria de gramática. O nome desta sumidade é Kanzi, um chimpanzé pigmeu de 12 anos que vive sob a tutela da psicóloga Sue Savage Rumbaugh, uma pesquisadora da Universidade da Geórgia. O macaco é capaz de se fazer entender, apontando símbolos num painel laminado ou apertando teclas que geram palavras em inglês. Como lhe falta controle das cordas vocais, o chimpanzé tem de se contentar com esse tipo de comunicação. Mas ele entende muito bem cerca de 7000 palavras que lhe são ditas em inglês.
Os behavioristas, psicólogos que concentram seus esforços no treinamento e molde do comportamento, podem alegar que o talento dos chimpanzés não passa de ações condicionadas por um sistema de recompensa e punição. Isso seria verdade, não fosse o fato de Kanzi ter participado com sucesso de uma competição contra uma garotinha de dois anos e meio, chamada Alie. O teste era para ver que sabia o significado de mais palavras em 660 frases ditadas em inglês. O vocabulário de Alie era superior. Mas o chipanzé foi capaz de associar melhor essas palavras entre si. Não é tarefa para um mico de circo qualquer. Para descançar da árdua competição, o chimpanzé por meio de símbolos pediu para rever dois de seus filmes prediletos: Quest for fire e Greystore – A Lenda de Tarzan.
Chimpanzés também têm imaginação, criatividade e habilidade manual para construir ferramentas. Um doce foi mostrado a Kanzi e depois trancado a chave numa caixa. A chave foi colocada em outro compartimento, que por sua vez foi fechado com uma corda. O macaco buscou em sua jaula duas pedrinhas que havia apanhado para brincar num passeio. Raspou as pedras até que ficassem bem afiadas. Conseguiu cortar a corda que lacrava a urna em que estava a chave. Em seguida, abriu a fechadura da primeira caixa, que continha o doce.
Entre os antropólogos há quem afirme que a fantástica evolução da humanidade foi determinada por sua capacidade de fabricar ferramentas. Nas cenas iniciais do filme “2001: uma odisséia no espaço”, os primatas idealizam uma arma. Na seqüência já se mostram plataformas espaciais. Isso sugere que, ao conceber o armamento, o homem estava a um passo de conquistar o universo. A julgar por essa teoria, os macacos Colobus vermelhos, habitantes da floresta tropical Kibali, em Uganda, estão prestes a entrar na corrida espacial.
A prova disso são as observações feitas pelos professores Lysa Lelend e Thomas Struhsaker, do American Museum of Nature History, na Reserva Florestal de Kibali. Nela, um bando de macacos, que têm vida social bem organizada, formam tropas de defesa contra os ataques de águias e já estão entre as presas mais difíceis dessa ave. Os Colobus vermelhos usam porretes para enfrentar o inimigo e agem em conjunto. Vale dizer: os macacos formam gangues e andam armados. Mais: nas hora vagas fazem política. Há toda uma rotina de traições e alianças pela liderança do grupo.
Parece ser mais fácil para os homens aceitar o fato de que macacos, em maior ou menos grau, tenham alguma inteligência: somos primos distantes deles, mas somos primos. Até mesmo os cães podem merecer alguma consideração no panteão da sapiência. O difícil é quando se trata de outros animais. Cães, por exemplo, são mais inteligentes do que se costuma imaginar.
No Mammal Research Center, em Palo Alto, na Califórnia, existem dez cachorros que ao visualizarem em tabuletas cumprem ordens. A dois deles foi proposto um jogo: cada um deveria apertar uma plaqueta eletrônica que lhes daria um pedaço de carne. Os símbolos e cores contidos eram diferentes, assim como a maneira da operação. Um dia os pesquisadores soltaram apenas um cão na sala de experimentos. O espertinho, ao verificar que o colega de jogo estava atrasado, não vacilou: correu a apertar a placa do companheiro ausente, comeu a carne e depois foi buscar a sua. O importante é que ninguém havia treinado o cachorro para saber como operar a plaqueta do outro cão. Ele aprendeu rápido – e sozinho.
Na verdade, até mesmo o cérebro de um pássaro não é lá de se jogar fora. A prova gritante disso agrade ou não aos que ainda pensam como Descartes, é o papagaio Alex, o bichinho de estudo e estimação de uma psicóloga que pesquisa as habilidades mentais dos animais. O papagaio consegue distinguir cores, formas e quantidades de objetos dentro de uma bandeja. Ele pega por exemplo cinco cubos azuis de madeira entre vários brinquedos espalhados numa mesa.
O papagaio fala e entende o que querem dele. Ao ser perguntado que brinquedo é aquele que a dona tem na mão, responde um cubo de madeira. Mas não é apenas nos jogos de laboratórios que o companheiro da psicóloga surpreende. Certa vez, ele teve de ser levado ao veterinário. Decidiu-se que, para bem do paciente, ele deveria ficar hospitalizado por uma noite. Quando sua dona começava a sair da clínica, Alex falou-se numa imitação de voz de criança: “Volte aqui. Eu te amo. Quero voltar”.
Focas que vivem no Long Marine Laboratory, em Santo Cruz, na Califórnia, e também golfinhos, estão entre os pioneiros da demonstração da inteligência animal. Uma foca mantida pelo Dr. Ronald Schusterman consegue relacionar, por exemplo, três objetos distintos, mas que mantenham alguma semelhança de formato. Ela também é capaz de selecionar um desenho que é o equivalente lógico de algum outro mostrado anteriormente. E mais: fica frustrada quando erra e manifesta contrariedade. Mas sua margem de acerto é de 24 em 28 tentativas.
Já os golfinhos costumam se superar em seus próprios esforços para demonstrar que sabem pensar. Em outra experiência recente mostram que, ao serem colocados diante de uma tela de televisão submersa, visualizam a treinadora alimentando outros golfinhos numa piscina vizinha. Ao perceberem que a mulher está chegando perto de seu tanque, correm para a superfície esperando a comida. Isso, segundo Louis Herman, diretor do Kewalo Basin Marine Mammal Laboratory, de Waikiki, no Havaí, é a prova de que os golfinhos são capazes de raciocínio abstrato.Esses animais também são conscientes de si. Exemplo: ao depararem com um espelho, ficam fazendo caretas. Tudo isso sem mencionar a compreensão que tem de uma linguagem de sinais que lhes permite obedecer a várias ordens. Ao receberem o comando de que é hora de fazer um truque criativo, a seu prazer, dois golfinhos improvisam uma performance digna de um musical da Metro. O passo seguinte, nesse laboratório, será formar uma espécie de dicionário com os sons emitidos pelos golfinhos e que lhes servem como sonar. Trata-se de um elaborado sistema de linguagem. Os cientistas querem inverter o processo de conversação: ao invés de ensinarem uma língua aos golfinhos, vão aprender a deles. O que para o homem pode assim valer para os animais; é conversando que a gente se entende.
Fonte:  Revista Isto É – 1225 24/3/93

 

Foto: National Geography
Foto: National Geographic

Declaração de Voltaire contra a teoria do animal-máquina de Descartes.

“É preciso, penso eu, ter renunciado à luz natural para ousar dizer que os animais são apenas máquinas. Há uma contradição manifesta em admitir que Deus pôs nos animais todos os órgãos do sentimento e em sustentar que não lhes deu sentimento. Parece-me também que não é preciso ter jamais observado os animais para não distinguir neles as diferentes vozes da necessidade, da alegria, do medo, do amor, da cólera e de todos os afetos; seria muito estranho que exprimissem tão bem o que não sentem”. Voltaire
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