Para Yemanjá oferendas, para o mar lixo

Para Yemanjá oferendas, para o mar lixo

Ilustração: Fratelli Fabbri Editore, Milano.
Ilustração: Fratelli Fabbri Editore, Milano.
Por Alexandre Rodrigues
Dia 02 de fevereiro, dia de festa em Salvador. A rainha do mar é homenageada com muitos presentes e muita alegria. O simbolismo do candomblé mobiliza a capital baiana. Oferendas são jogadas no mar como demonstração de fé. Mas onde estão as notícias informando a quantidade de lixo que é despejado no fundo do oceano Atlântico?

Há oitenta e cinco anos acontece anualmente a festa em homenagem a rainha das águas, Yemanjá. Uma fila de fiéis se aglomera todo dia dois de fevereiro para demonstrar sua fé através de oferendas feitas em retribuição a graças alcançadas, ou em desejos a serem atendidos pela majestosa sereia. E nada abala essa legião que cresce de maneira exorbitante, como se proliferasse em uma progressão geométrica de um ano para o outro e com eles os presentes: bibelôs, flores, perfumes, jóias.
Segundo reza a crendice popular, todo agrado feito pode ou não ser aceito pela mãe das águas, dependendo do merecimento de quem o oferece e/ou do gosto pelo mimo da sereia. O que é recusado volta das profundezas e é jogado na maré que o trará de volta a areia da praia. O que é aceito desaparece no fundo do mar. Mas será que desaparece mesmo?
Segundo comparações feitas entre os sites lixo.com.br, pescacananeia.com.br e informações cedidas pelo Centro de Recursos Ambientais – CRA – de Salvador, foram analisados matérias como papel, pano, madeira pintada, nylon, alumínio, metal, plástico, vidro e borracha.
O papel precisa de um tempo aproximado para total degradação que pode variar de três a seis meses. O pano entre seis meses e um ano. Madeira pintada entre treze e quatorze anos. Nylon, mais de trinta anos. Metal, mais de cem anos. O alumínio possui uma variação de tempo que vai de oitenta a quinhentos anos para ser decompostos integralmente. Plástico, de cem a quatrocentos e cinqüenta anos. E um dos mais inacreditáveis, o vidro que tem tempo de decomposição com variação de quatro mil a um milhão de anos, só perdendo para a borracha que ainda possui tempo de vida indeterminado.
Simbologias a parte, e tomando como base os valores mais baixos de cada um dos itens avaliados façamos uma comparação fria destes. O papel e o pano jogados ao mar serão totalmente desintegrados antes mesmo que os turistas voltem para o próximo carnaval. A madeira utilizada para a construção do suporte das embarcações simbólicas que carregam as oferendas será totalmente decomposta antes que uma criança que acaba de nascer debute. O nylon, por sua vez, sumirá do fundo do oceano antes que essa mesma criança chegue à meia idade, considerando esta por volta dos cinqüenta anos. O alumínio poderá ultrapassar o tempo de vida dessa criança já que a média da população baiana está entre sessenta e oitenta anos, e o material tem seu menor tempo de decomposição estipulado em oitenta anos. O metal e todo material plástico depositados no ano de nascimento, ainda da criança hipotética, estará no fundo do mar quando ela for enterrada. O vidro seguirá por gerações descendentes dessa criança antes que possa ser totalmente desintegrado.
Se toda essa analogia sentimentalista ainda não se fez suficiente, sejamos ainda mais lógicos, tomando como objeto de estudo o vidro. Este material tem o menor tempo aproximado de quatro mil anos para ser totalmente desintegrado no ambiente. Se a primeira festa em homenagem a Yemanjá foi a oitenta e cinco anos, é fato afirmar que qualquer material feito de vidro oferecido à sereia, ainda hoje estará em processo de degradação no fundo das águas.
Todo este estudo feito até o momento é do material que teria sido “aceito” pela entidade. Mas não descartemos, ainda, o que é “rejeitado” pela mesma.
Segundo o Sr. Raimundo dos Santos, pescador que faz parte da colônia do bairro do Rio Vermelho, a quantidade de oferendas que retornam a praia tem oscilações consideráveis durante os anos. Quando questionado sobre o quanto o material depositado no mar pode interferir no ecossistema marinho, ele afirma não atrapalhar, já que tudo é jogado a duas horas da costa. O fato é que, independente da quantidade de lixo que volta a praia, uma parte dele sempre volta, deixando o litoral do Rio Vermelho e bairros vizinhos com aspecto imundo. Raimundo ainda afirma que o lixo trazido à praia é recolhido pela prefeitura nos dias que seguem a manifestação.
Um dos combatentes contra a poluição das praias baianas é o Grupo Ambientalista da Bahia. O gambá, como também é conhecido, desde 1985 demonstra sua preocupação pelo litoral baiano quando lançou a campanha “Amar o Mar”, A intenção era chamar a atenção da população e das autoridades para a situação das águas soteropolitanas.
O resultado dessa ação foi a instalação do monitoramento sistemático da qualidade de água do mar pelo Centro de Recursos Ambientais (CRA). E este foi só o primeiro passo. Depois de lançada a campanha, o governo estadual começou o estudo para a criação de um programa voltado para a despoluição da Baía de Todos os Santos, com intervenções nas áreas de esgotamento sanitário, abastecimento de água, coleta e destino final do lixo e controle da poluição industrial. E essa mobilização não parou por ai. Em 2003 lança um projeto intitulado “Por dentro do Bahia Azul”, propondo avaliar cada uma das metas do programa e o seu cumprimento, ao mesmo tempo em que assumia o papel de incentivador apontando soluções para a despoluição da Baía de Todos os Santos.
Hoje o Gambá acompanha as ações do governo para solucionar os problemas ambientais da cidade através do projeto “Observatório de Políticas Públicas”.
Em entrevista com a assessora de comunicação Aline Leão Amoedo, ela afirma ser delicado lidar com educação ambiental, já que esta vai de encontro a fatores como sincretismo e fé de um povo. Porém, não nega que todo o material despejado no Atlântico interfira no ecossistema marinho como um todo.A fé e a crença nos poderes do Orixá das águas salgadas são fatores inflexíveis para serem questionados, porém se deve haver questionamento, então que seja feito sobre o futuro da vida marinha e o quanto isso pode interferir no futuro de um planeta que já briga contra um colapso ambiental.
Fonte: Jornal de Banheiro
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